segunda-feira, 28 de março de 2011

Algo de muito tempo atrás...

estou cansado de procurar - e não encontrar.
estou cansado de não ter um começo - e um final.
estou cansado de não poder - e querer.
eu estou cansado.

eu quero cores - e amores.
paixões e assassinatos.
quero minha casa amarela - na praia.
quero estar bem - e só.

a solidão que procuro é aquela solidão que não dói, não essa.
não essa solidão que me aflige o dia inteiro.
quero estar sereno, e quero ser verdadeiro.
não quero perguntas, nem respostas.


eu quero simplesmente saber. quero ser.
quero um mundo em que eu possa viver.
em que a poesia valha mais que alguns trocados.
eu quero alma.


eu quero tudo. eu quero guardar pra mostrar os momentos mais lindos
em que o sol bate na velha igreja.
quero guardar o seu sorriso pra mostrar pros netos.
eu quero seu vestido solto, quero aranhas no teto.


aquela velha casa, com paredes tão brancas
paredes que contêm todas as memórias - memórias essas, que nem eu mesmo sei.
quero o espelho com bordas de prata enferrujadas.
quero meu tanque cheio de gasolina.

quero não me sentir assim de novo.
não quero chorar, nem me conter.
não quero ser assim, porque não sou.
porque eu quero um arco-íris sem cachoeira.


eu quero pular de pará-quedas.
eu quero um bosque só pra mim.
encontrar a chave mais antiga
que abra a mais misteriosa porta.

eu quero o oculto descoberto
o véu negro no céu escuro.
um sarau num século passado.
quero ser o pássaro engaiolado.


e mesmo que eu pareça contraditório
quero que você me entenda completamente.
eu quero guardar isso pra sempre.
eu quero meu sentimento exposto.


quero ter algo meu, pequeno e aconchegante.
fazendo um jantar nada elegante.
quero tomar chá nas minhas xícaras cor-de-rosa
e ver você amar isto, porque também sonhou assim.


e então finalmente cortinas, da mesma cor da xícara
que são quase transparentes quando deixam o sol entrar.
e uma brisa vem e bagunça meus cabelos.
e aquilo não é ruim, mas encantador.


recebemos então nossos ilustres amigos
ilustres simplesmente porque os amamos.
e sorrimos diante de memórias do passado
que foram tão boas quanto ruins.

agora mais nada disso importa
porque cada um de nós tem sua vida
e temos todos nossas próprias preocupações
mas elas são todas deliciosas.

são filhos, e nossas novas carreiras
são propostas e viagens ao estrangeiro
são pensamentos sobre o que vamos encontrar
e sobre quem convidaremos no próximo jantar.


e tudo embora repetitivo, parece sempre assim, tão divertido
e a vida passa de maneira deslumbrante
mostrando um baú com memórias loucas


nossa loucura foi finalmente perdoada
e não precisamos mais rezar

nossos dias na igreja hoje fazem parte dos filmes que assistimos

e nunca mais choraremos
por algum leite
derramado.

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